
Reflexões texto-visuais desenvolvidas durante os workshops As Interfaces Visuais da Música no projeto Música: Cultura em Movimento.
A atualidade traz a música expandida em sua digitalização – além de citações, colagens e do remix – são diversas formas de criação, produção e apresentação que a faz objeto multimídia por excelência. Sua presença instiga um diálogo sensorial que envolve nosso corpo, pensamentos e lugares. Quando ouvimos um som, algo se forma em nossa mente, sensações aparecem como impressões que racionalizadas transformam-se em imagens. A música – organização de sons, palavras e sentimentos – estrutura-se através de nossos sentidos (espacial, sensorial e pictórico), pela imaginação e pela linguagem (convencional e significativa).
Interagimos com a Música Através dos Tempos
Momentos e pensamentos moldaram a ur-sociedade e a evolução dos documentos construíram a história: das primeiras inscrições humanas nas cavernas – lito-documentos do fato-ritual – aos tabletes de argila com inscrições cuneiformes – cunhados pelos sumérios há 4600 anos – ou ainda as anotações em grego semi-cursivo em papiro egípcio datadas de 2300 anos. Entre as anotações fonéticas da era bizantina e as notações sistêmicas de sons no medievo, ainda sem o pentagrama, a anotação musical tornou-se sinônimo de composição, o design da música. A natureza do som evoluiu de notações inscritas em matéria ao código numérico, seu estado digital; com a tecnologia, resposta às necessidades humanas em cada momento evolutivo, o som foi transformado – das ondas aos bits – aproximando-se essencialmente de todo tipo de informação – um texto, uma imagem, um vídeo, um software – e se expandindo em inúmeras possibilidades. Seu conteúdo – uso e suporte não mais restrito à área musical – apresenta-se multimídia e permeia objetos, espaços e lugares.
Compreender o conceito de música como objeto multimídia – objeto, signos e potencialidades – amplia a construção do pensamento musical em situações únicas no processo de criação. É perceber a convergência do som, imagem e texto, como um outro instante na arte contemporânea. Como profissionais de criação, desde que nos envolvemos em projetos para o mercado da música, questões como a representação da música, enquanto sua representação, tornaramse presentes em nossos encontros. Como apresentar a música em todas as suas formas, cores e composições? Como transcender a anotação musical – projeto primordial – e traduzir a música para a visão e nosso corpo como um todo? Uma postura sólida para o design contemporâneo não dá espaço a receitas prontas, é preciso ir além das questões propostas pelas escolas do passado. Podemos escolher e trilhar livremente caminhos dentre os inúmeros possíveis.
O Workshop
Construímos um sistema de notação que apresenta características comuns às infografias e ao design da informação, relacionando-os – sons, ruídos e o silêncio – à sua organização. Documentamos a experiência auditiva, como objeto e em suas relações abstratas, como sua codificação e síntese por meio de um processo simbólico bidimensional. Definimos a anotação permanente do som – em sua efemeridade – dando a possibilidade de leitura da experiência original e assim ser recriado. A cada workshop, novas questões ampliaram nossas pesquisas iniciais. Músicos participantes tornaram nossas conversas momentos de criação e esclarecimento para este outro produto musical. Discutimos a importância de criadores como Richard Wagner e o conceito de Obra de Arte Total – Gesamtkunstwerk – as capas de disco de Alex Steinweiss, da Blue Note e de Peter Saville, os espetáculos de Pink Floyd, Velvet Underground, a visualidade glitter de Ziggy Stardust e do Roxy Music, os espetáculos tecnostandards do U2, o programa Criança Esperança e Ivete Sangalo, as aberturas e peças gráficas de Saul Bass e os seminais cartazes de Kiko Farkas, a Buzina do Chacrinha e a programação da MTV, a mobilidade do walkman ao ipod, as performances do Fura del Baus, Hotel Pro Forma e o teatro sintético de Bob Wilson, as experiências midiáticas de Michel Gondry, Chris Cunningham, Spike Jonze, Mark Romanek, Jonathan Glazer…
Peças em Processo
As páginas seguintes reproduzem o diálogo tipológico e audiovisual que tivemos pelo Brasil. Uma obra em processo, também documentada em nosso site, que inspirou reflexões gráficas, culturais e antropológicas no universo da música, uma pesquisa transdisciplinar pelas mãos de André Felipe, Daniel Murray, Debora Mieko, J.C. Bruno, Luiz Roberto LoPreto, Marcos Alves, Marinilda Bertolete Boulay, Nelson Urssi, Philippe Ariagno, Rafael Assis, Roberto Fialho, Silvio Ferraz, Valéria Fialho, Weberson Santiago e os participantes do projeto MCM. Obras criadas colaborativamente – artistas, arquitetos, professores, designers e ilustradores – para o projeto Música: Cultura em Movimento. Obras visuais que apreendem a construção de sentido na música contemporânea.
Veja os sons. Ouça as imagens.